Os ataques a navios de carga perto da Roménia e da Bulgária estão a alargar o conflito marítimo entre a Rússia e a Ucrânia e a pôr à prova a resposta da NATO no Mar Negro. Depois de sete ataques perto dos dois membros da aliança em outubro, a NATO anunciou que iria mobilizar aeronaves de patrulha marítima, radares e drones para reforçar o seu flanco oriental. Três dias depois, outro navio foi atingido fora das águas romenas e, na semana seguinte, um navio porta-contentores grego foi afundado por drones navais na zona económica exclusiva da Bulgária.

Analistas militares disseram acreditar que os ataques foram russos. A empresa de segurança marítima Ambrey afirmou que o drone naval visível nas imagens do ataque mais recente se assemelhava a um modelo russo. Moscovo nega ter como alvo os vizinhos da Ucrânia e afirma que os governos europeus estão a intensificar a guerra ao fornecerem ajuda militar. O Ministério da Defesa da Rússia não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.

Muitas das embarcações atingidas em outubro estavam ancoradas perto de um canal romeno utilizado pela Ucrânia para as suas exportações, ou viajavam de ou para esse canal. Uma foi atingida em águas territoriais romenas e outras oito nas zonas económicas exclusivas da Roménia ou da Bulgária. Iulia Joja, do Middle East Institute, afirmou que a Rússia estava a testar os limites do Ocidente, esperando uma resposta contida. Um responsável da NATO descreveu as ações russas destinadas a dissuadir o apoio à Ucrânia como uma grave ameaça à segurança e afirmou que o compromisso da aliança de defender os seus membros era «inquebrantável».

O responsável afirmou também que a NATO precisava de sistemas antidrones acessíveis. A aliança comprometeu-se a investir mais de 40 mil milhões de dólares nessas capacidades nos próximos cinco anos. A Roménia pediu intercetores terra-ar e sistemas de radar, enquanto analistas apontam a oferta limitada de armas intercetoras de baixo custo como um desafio mais amplo para os países ocidentais.

Os ataques ameaçam uma rota comercial vital para a Roménia, que também acolhe o projeto de gás offshore Neptun Deep. Em agosto, um drone naval aproximou-se do projeto. Bucareste descreveu os ataques a navios civis como sistemáticos, mas não atribuiu ataques específicos, citando a necessidade de provas forenses. A Bulgária não culpou diretamente a Rússia, embora tenha afirmado que alguns ataques parecem beneficiar Moscovo.

A escalada ocorre enquanto Washington reavalia a sua presença militar na Europa e transfere a atenção para a China. Os Estados Unidos retiraram mil soldados da Roménia no ano passado. Um alto responsável romeno afirmou que a Rússia poderia tentar tirar partido do momento, enquanto Joja disse que a NATO não reforçou a Roménia da mesma forma que aumentou a sua presença nos países bálticos e na Polónia.

Os dados sobre a navegação apontam para um aumento acentuado dos ataques. Tomas Alexa, analista da Ambrey Analytics, afirmou que a Rússia e a Ucrânia atacaram 317 navios mercantes e outras embarcações no Mar Negro e no Mar de Azov entre maio e outubro, mais de quatro vezes os 74 atingidos nos seis meses anteriores. A Ucrânia realizou 137 ataques a navios no terceiro trimestre, em comparação com 92 da Rússia. Em outubro, a Ambrey registou 38 ataques russos e cinco ucranianos.

A perturbação também reduziu as exportações. Os carregamentos russos de cereais através do Mar Negro e do Mar de Azov caíram para 0,3 milhões de toneladas métricas em setembro, face a 4,74 milhões um ano antes, segundo dados russos sobre exportações consultados pela Reuters. A Ucrânia suspendeu as operações nos seus portos do Mar Negro no final de julho, na sequência de ataques russos, e desviou a carga através dos portos fluviais do Danúbio e da Roménia. Ainda assim, as exportações ucranianas de cereais a partir dos portos caíram para 0,81 milhões de toneladas métricas em setembro, em comparação com 2,1 milhões no mesmo mês do ano passado.

A Turquia, que controla a passagem de navios de guerra pelo Bósforo e pelos Dardanelos ao abrigo da Convenção de Montreux, instou a Rússia e a Ucrânia a evitarem novos ataques. Vários países, incluindo o Egito, a Turquia e a Índia, apelaram a um cessar-fogo marítimo, devido às preocupações com as perturbações no abastecimento de combustíveis e cereais. A Rússia rejeitou um cessar-fogo limitado, afirmando que daria um alívio a Kiev. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, alertou que a atenção aos riscos para o abastecimento de combustíveis poderia fazer com que uma crise agrícola iminente passasse despercebida.

Fontes: Investing.com News.